Nós sempre
tivemos um problema sério. Todos os casais tem problemas sérios. Nós tínhamos
também. Mas, além dos problemas sérios
que todos os casais tem, havia algo além.
Nunca
conseguimos viver em um lugar arrumado. Não porque o lugar era ruim ou algo
assim. Porque nós não temos a habilidade de viver em ordem.
Moramos em uma
casa grande, em um apartamento minúsculo. Nenhum dos dois lugares passaram uma
semana se quer minimamente habitáveis.
Vivíamos um
dia por semana em uma casa como se vê nos filmes. No dia que a Edileuza, nossa
faxineira, deixava cada coisinha no seu devido lugar. Não que nós não
soubéssemos que os pratos sujos devessem ir para a pia e as xicaras também. Que
as roupas suja moram no cesto-de-roupa-suja e as roupas limpas no
guarda-roupas. Sabemos disso. Óbvio. Nossas mães foram sempre boas mães e nos
ensinaram tudo direitinho.
Sabemos como
arrumar a cama, lavar a louça e jogar a roupa suja no cesto-de-roupa-suja. Mas,
havia algo que não funcionava muito bem. Como se o braço da maquina que leva a
roupa suja pro cesto-de-roupa-suja estivesse em manutenção.
Ai, a roupa
suja morava pendurada na cadeira da mesa de jantar, as bolsas e mochilas
também. Quatro cadeiras, o que significa: uma cadeira-porta-bolsa, uma
cadeira-porta-guarda-chuva, uma cadeira-cesto-de-roupa-suja, uma
cadeira-cadeira.
A mesa de
jantar que se encontrava ao centro das cadeiras multiuso abrigava dois pratos e
duas facas que eram usadas por umas três refeições antes de serem levados para
a pia. Eu sei. Isso parece nojento, mas só usávamos esses itens para o café da
manhã ou lanche da noite. Sempre que fazíamos refeições mais elaboradas e que
pudessem fazer lambuzeira, trocávamos o prato.
A mesa também
era multiuso. Tudo que usássemos acabava morando sobre ela por um tempo. Os
mais vistos eram os livros, as bolsas que as vezes não eram penduradas na
cadeira-porta-bolsa, cigarro, copos sujos, óculos de sol e a grande estrela da
mesa multiuso: a coleção de contas. Elas se apoderavam da mesa. A mesa na
verdade era uma grande mesa-escrivaninha que eventualmente serviria como local
de refeição.
Eu
especialmente gostava de comer no sofá. Apoiava o copo na mesinha de canto que
aos sábados abrigava todos os copos que eu usei durante a semana.
Enquanto
escrevo uma frase corrói meus pensamentos: como alguém consegue morar nesse
chiqueiro?
A gente mora.
E não somos dois obesos de cinquenta anos que mal conseguem levantar do sofá
para ir ao banheiro. Somos jovens, metidos a descolados e com habilidades e bom
gosto o suficiente para morar em um lugar bonitinho.
Nossa casa
inclusive é bonitinha, e bagunçada. Claro!
Algo acontece
aqui que foge do nosso controle. E eu procuro uma causa e obviamente uma
solução.
Será que
nossas mães foram tão boas mães que na ânsia por deixar tudo arrumadinho
esqueceram de nos ensinar como fazer isso? Será que para deixar tudo impecável
se gasta tanto tempo que não sobrou tempo de nos dizer que isso dá um
trabalhão? Ou será que só faltou elas nos contarem que a cama não precisa estar
sempre arrumada, que a pia pode ter uma pilha de louça, que as cadeiras são
mesmo multiuso e que mesmo assim o lugar que abriga tudo isso pode ser chamado
de lar? Que as casas das novelas não existem, pois são um cenário e ali não
mora ninguém.
Talvez seja
bacana as roupas sujas morarem no cesto-de-roupa-suja, mas se por acaso elas
tiverem uma estadia mais longa na cadeira-cesto-de-roupa-suja, isso não fará de
você um fracasso como pessoa, dona(o) de casa ou o que quer que seja.
Casa bagunçada
significa que ali mora gente. Gente que vive, come, suja roupa e tem outras
prioridades além de lavar louça. Que tem preguiça sim!
Não que eu
ache que a casa tem que ser um chiqueiro porque eu tenho preguiça de arrumar. Mas
também não precisamos virar escravos e passar a vida tentando fazer com que um
lar se pareça com um cenário-casa que vemos na televisão.
E seria
maravilhoso se o pó de pirilim-pim-pim que fazia a casa da minha mãe estar
sempre arrumada viesse morar um tempo na nossa casa-lar-chiqueirinho. Seria uma
casa-pirilim-pim-pim, imaginem só!!! A única questão é que não temos um quarto
para acomodar a mamãe. Porque a mágica estava nas mãos e no tempo precioso
dela.
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