Apego foi
sempre um mal que me acometeu, apesar de só ter percebido isso quando tive que
me desapegar.
Vivi no mesmo
bairro, na mesma casa por 20 anos. A casa pouco mudava. Meus pais também sofriam de Apego.
Quando casei,
aluguei uma casinha três quadras da casa dos meus pais. Adorava o bairro e pra
que sair de um bairro tão arborizado, calmo e ideal?
O aluguel era
honesto, a casa uma delícia, o lugar uma vila fofa e cheia de charme. Era o
paraíso. O paraíso conhecido, os rostos que eu cresci observando entrar e sair
do mercadinho, da padaria, das casas. Ali tudo era familiar. Todos me conheciam
pelo nome.
O bairro se
organizava de tal forma que eu me sentia amparada por ele. Quando acabava meu
açúcar eu podia fazer como nos filmes e pedir para senhora fofa que morava na
casa da frente uma xicara emprestada. E quando eu fazia isso, ela sempre me
empurrava o pacote extra de açúcar que ela tinha na dispensa ou uma dúzia de
ovos que ela dizia estar sobrando. Uma graça. Quem não quer se sentir no
interior no meio desse caos que é São Paulo.
Caos mesmo foi
a forma abrupta que eu tive que me despedir do meu paraíso e do meu Apego.
A realidade
veio como uma avalanche, entreguei a casinha e o paraíso foi perdido. Meses
depois estava morando em um apartamento do tamanho da minha sala-paraíso e o
pior, em outro bairro.
Fui morar no
mesmo bairro que trabalhava, o que parecia resolver muitos problemas. Carro,
trânsito, tempo de deslocamento. Um bairro pop cheio de bares e jovens como eu.
Maravilhoso.
Maravilhosamente
barulhento e cheio de estranhos. Me senti como as pessoas do interior que vem
morar em São Paulo e ficam se queixando da cidade, do barulho e dos excessos
que habitam este lugar. Me senti a menina da roça que anseia por passarinhos
cantando e pelo cheiro da terra depois da chuva.
Como cinco
quilômetros entre dois pontos da mesma cidade podem despertar tamanho
estranhamento?
Foi assim por
um tempo. O famoso tempo de adaptação e desapego.
E foi em um
almoço de uma terça-feira qualquer que percebi os primeiros sinais de
pertencimento a esse novo-bairro-pop-barulhento.
Todas as
terças eu almoçava em um restaurante por quilo simplório próximo ao meu
consultório. Em função dos meus horários, precisava almoçar 11h30 e chegava ao
restaurante assim que as portas se abriam. Um habito que tinha um ‘quê’ de
interiorano.
E nesses vinte
minutos semanais, fui presenteada com três mesas ocupadas além da minha. Na
mesa do canto esquerdo se sentava Dona Maria, uma japonesa compacta e educada
que comia como um passarinho. Na mesa escondida atrás de uma pilastra sentava o
Sr. Luís, dono de uma mecânica do bairro e que após o almoço, ainda sentado em
sua mesa, contava as moedas que pagariam seu almoço. E na mesa em frente a
minha, um casal de idosos que me tiravam suspiros. Ele sempre levava o prato da
esposa até a mesa enquanto ela lavava as mãos e sempre doava à ela alguma coisa
de seu prato. Um cuidado afetuoso lindo de ver.
Nesse horário
só haviam essas quatro mesas ocupadas. E sempre cada um na sua mesa. Nunca vi
nenhum deles sentados em outra posição, muito menos em outra mesa. E eu
obedecia o ritual, sentando sempre na mesma mesa, na mesma cadeira.
Quando comecei
a frequentar o restaurante eles se cumprimentavam e eu só observava. A senhora
da mesa da frente foi a primeira a me ver. “Bom
dia mocinha! Bom apetite”. Essa simples frase me tirou um sorriso largo.
Aos poucos
eles foram se habituando a minha presença. A mocinha que almoça cedo. De longe
eu sou a única com menos de cinquenta anos. O “bom dia” se tornou uma rotina e
sentar na mesma mesa, do mesmo restaurante, com as mesmas companhias toda
semana um habito. Quase um apego.
Hoje, ao pagar
a minha conta e ser chamada pelo meu nome faz com que o
bairro-estranho-pop-barulhento se torne um pouco meu lar.
Ainda sinto
falta dos passarinhos, mas os vinte minutos semanais nos quais eu não sou uma
estranha e tenho nome próprio fazem eu sentir cheiro de terra molhada depois da
chuva e me sentir em casa.
