19 de mar. de 2014

Raízes Necessárias




Apego foi sempre um mal que me acometeu, apesar de só ter percebido isso quando tive que me desapegar.
Vivi no mesmo bairro, na mesma casa por 20 anos. A casa pouco mudava. Meus pais  também sofriam de Apego.
Quando casei, aluguei uma casinha três quadras da casa dos meus pais. Adorava o bairro e pra que sair de um bairro tão arborizado, calmo e ideal?
O aluguel era honesto, a casa uma delícia, o lugar uma vila fofa e cheia de charme. Era o paraíso. O paraíso conhecido, os rostos que eu cresci observando entrar e sair do mercadinho, da padaria, das casas. Ali tudo era familiar. Todos me conheciam pelo nome.
O bairro se organizava de tal forma que eu me sentia amparada por ele. Quando acabava meu açúcar eu podia fazer como nos filmes e pedir para senhora fofa que morava na casa da frente uma xicara emprestada. E quando eu fazia isso, ela sempre me empurrava o pacote extra de açúcar que ela tinha na dispensa ou uma dúzia de ovos que ela dizia estar sobrando. Uma graça. Quem não quer se sentir no interior no meio desse caos que é São Paulo.
Caos mesmo foi a forma abrupta que eu tive que me despedir do meu paraíso e do meu Apego.
A realidade veio como uma avalanche, entreguei a casinha e o paraíso foi perdido. Meses depois estava morando em um apartamento do tamanho da minha sala-paraíso e o pior, em outro bairro.
Fui morar no mesmo bairro que trabalhava, o que parecia resolver muitos problemas. Carro, trânsito, tempo de deslocamento. Um bairro pop cheio de bares e jovens como eu.
Maravilhoso.
Maravilhosamente barulhento e cheio de estranhos. Me senti como as pessoas do interior que vem morar em São Paulo e ficam se queixando da cidade, do barulho e dos excessos que habitam este lugar. Me senti a menina da roça que anseia por passarinhos cantando e pelo cheiro da terra depois da chuva.
Como cinco quilômetros entre dois pontos da mesma cidade podem despertar tamanho estranhamento?
Foi assim por um tempo. O famoso tempo de adaptação e desapego.
E foi em um almoço de uma terça-feira qualquer que percebi os primeiros sinais de pertencimento a esse novo-bairro-pop-barulhento.
Todas as terças eu almoçava em um restaurante por quilo simplório próximo ao meu consultório. Em função dos meus horários, precisava almoçar 11h30 e chegava ao restaurante assim que as portas se abriam. Um habito que tinha um ‘quê’ de interiorano.
E nesses vinte minutos semanais, fui presenteada com três mesas ocupadas além da minha. Na mesa do canto esquerdo se sentava Dona Maria, uma japonesa compacta e educada que comia como um passarinho. Na mesa escondida atrás de uma pilastra sentava o Sr. Luís, dono de uma mecânica do bairro e que após o almoço, ainda sentado em sua mesa, contava as moedas que pagariam seu almoço. E na mesa em frente a minha, um casal de idosos que me tiravam suspiros. Ele sempre levava o prato da esposa até a mesa enquanto ela lavava as mãos e sempre doava à ela alguma coisa de seu prato. Um cuidado afetuoso lindo de ver.
Nesse horário só haviam essas quatro mesas ocupadas. E sempre cada um na sua mesa. Nunca vi nenhum deles sentados em outra posição, muito menos em outra mesa. E eu obedecia o ritual, sentando sempre na mesma mesa, na mesma cadeira.
Quando comecei a frequentar o restaurante eles se cumprimentavam e eu só observava. A senhora da mesa da frente foi a primeira a me ver. “Bom  dia mocinha! Bom apetite”. Essa simples frase me tirou um sorriso largo.
Aos poucos eles foram se habituando a minha presença. A mocinha que almoça cedo. De longe eu sou a única com menos de cinquenta anos. O “bom dia” se tornou uma rotina e sentar na mesma mesa, do mesmo restaurante, com as mesmas companhias toda semana um habito. Quase um apego.
Hoje, ao pagar a minha conta e ser chamada pelo meu nome faz com que o bairro-estranho-pop-barulhento se torne um pouco meu lar.

Ainda sinto falta dos passarinhos, mas os vinte minutos semanais nos quais eu não sou uma estranha e tenho nome próprio fazem eu sentir cheiro de terra molhada depois da chuva e me sentir em casa.

16 de mar. de 2014

Coisas da vida adulta....


Nós sempre tivemos um problema sério. Todos os casais tem problemas sérios. Nós tínhamos também. Mas, além dos  problemas sérios que todos os casais tem, havia algo além.
Nunca conseguimos viver em um lugar arrumado. Não porque o lugar era ruim ou algo assim. Porque nós não temos a habilidade de viver em ordem.
Moramos em uma casa grande, em um apartamento minúsculo. Nenhum dos dois lugares passaram uma semana se quer minimamente habitáveis.
Vivíamos um dia por semana em uma casa como se vê nos filmes. No dia que a Edileuza, nossa faxineira, deixava cada coisinha no seu devido lugar. Não que nós não soubéssemos que os pratos sujos devessem ir para a pia e as xicaras também. Que as roupas suja moram no cesto-de-roupa-suja e as roupas limpas no guarda-roupas. Sabemos disso. Óbvio. Nossas mães foram sempre boas mães e nos ensinaram tudo direitinho.
Sabemos como arrumar a cama, lavar a louça e jogar a roupa suja no cesto-de-roupa-suja. Mas, havia algo que não funcionava muito bem. Como se o braço da maquina que leva a roupa suja pro cesto-de-roupa-suja estivesse em manutenção.
Ai, a roupa suja morava pendurada na cadeira da mesa de jantar, as bolsas e mochilas também. Quatro cadeiras, o que significa: uma cadeira-porta-bolsa, uma cadeira-porta-guarda-chuva, uma cadeira-cesto-de-roupa-suja, uma cadeira-cadeira.
A mesa de jantar que se encontrava ao centro das cadeiras multiuso abrigava dois pratos e duas facas que eram usadas por umas três refeições antes de serem levados para a pia. Eu sei. Isso parece nojento, mas só usávamos esses itens para o café da manhã ou lanche da noite. Sempre que fazíamos refeições mais elaboradas e que pudessem fazer lambuzeira, trocávamos o prato.
A mesa também era multiuso. Tudo que usássemos acabava morando sobre ela por um tempo. Os mais vistos eram os livros, as bolsas que as vezes não eram penduradas na cadeira-porta-bolsa, cigarro, copos sujos, óculos de sol e a grande estrela da mesa multiuso: a coleção de contas. Elas se apoderavam da mesa. A mesa na verdade era uma grande mesa-escrivaninha que eventualmente serviria como local de refeição.
Eu especialmente gostava de comer no sofá. Apoiava o copo na mesinha de canto que aos sábados abrigava todos os copos que eu usei durante a semana.
Enquanto escrevo uma frase corrói meus pensamentos: como alguém consegue morar nesse chiqueiro?
A gente mora. E não somos dois obesos de cinquenta anos que mal conseguem levantar do sofá para ir ao banheiro. Somos jovens, metidos a descolados e com habilidades e bom gosto o suficiente para morar em um lugar bonitinho.
Nossa casa inclusive é bonitinha, e bagunçada. Claro!
Algo acontece aqui que foge do nosso controle. E eu procuro uma causa e obviamente uma solução.
Será que nossas mães foram tão boas mães que na ânsia por deixar tudo arrumadinho esqueceram de nos ensinar como fazer isso? Será que para deixar tudo impecável se gasta tanto tempo que não sobrou tempo de nos dizer que isso dá um trabalhão? Ou será que só faltou elas nos contarem que a cama não precisa estar sempre arrumada, que a pia pode ter uma pilha de louça, que as cadeiras são mesmo multiuso e que mesmo assim o lugar que abriga tudo isso pode ser chamado de lar? Que as casas das novelas não existem, pois são um cenário e ali não mora ninguém.
Talvez seja bacana as roupas sujas morarem no cesto-de-roupa-suja, mas se por acaso elas tiverem uma estadia mais longa na cadeira-cesto-de-roupa-suja, isso não fará de você um fracasso como pessoa, dona(o) de casa ou o que quer que seja.
Casa bagunçada significa que ali mora gente. Gente que vive, come, suja roupa e tem outras prioridades além de lavar louça. Que tem preguiça sim!
Não que eu ache que a casa tem que ser um chiqueiro porque eu tenho preguiça de arrumar. Mas também não precisamos virar escravos e passar a vida tentando fazer com que um lar se pareça com um cenário-casa que vemos na televisão.

E seria maravilhoso se o pó de pirilim-pim-pim que fazia a casa da minha mãe estar sempre arrumada viesse morar um tempo na nossa casa-lar-chiqueirinho. Seria uma casa-pirilim-pim-pim, imaginem só!!! A única questão é que não temos um quarto para acomodar a mamãe. Porque a mágica estava nas mãos e no tempo precioso dela.